Chandu Laca: Tete tem música para oferecer

Notícias 30 de Maio de 2007

É nhungue, nascido em Tete há 61 anos. Tem quase cinquenta anos na estrada da música, mas só agora apresenta o seu primeiro CD.... que sugere a memória colectiva das gentes do Vale do Zambeze. Casado, pai de três filhos, canta uma música ligeira moçambicana atravessada por diferentes gostos musicais, com particular enfoque para os ritmos da sua terra natal, a terra da barragem e dos cabritos, da maçaroca e do “malambe”, do peixe “chicoa” e de (muitos) crocodilos. Seu nome é conhecido um pouco por todo o país, com particular infoque para a região Centro. Falamos de Chandu Lacá, autor da famosa canção “Leka Culira”, que esteve recentemente em Maputo para negociar a edição do seu álbum com a Vidisco, pretexto para esta conversa, em que fala sobre si e sua carreira. Alias, não podia ser para mais, já que Chandú Lacá é um comunicador por excelência.

- Aonde nasceu e como se iniciou na música?

- Nasci em Tete, há 61 anos. Comecei a tocar desde criança, aos 9 anos, por influência do meu irmão mais velho Amir, já falecido, que também era músico e liderava uma banda de irmãos. Foi o Amir que me ensinou a tocar viola baixo, isso no bairro Matundo, próximo da ponte sobre o Zambeze. A dado momento, a banda recebeu uma proposta de um senhor de nome Marques, dono de um bar, para animar o seu espaço com música ao vivo. Esse momento marcou o início da minha carreira.

- Nessa altura tocava. Também cantava?

- Não! Eu só tocava. A oportunidade de cantar só veio mais tarde, com a onda dos bailes, que tinha a música brasileira no centro das interpretações.

- Mas quando é que começa o seu envolvimento seriamente?

- O meu envolvimento propriamente dito dá-se em 1977. O meu pai, já falecido, era um funcionário dos CFM em Moatize e lá existia um clube (Ferroviário) que tinha também uma banda musical chamada “Africa Power”. E como nós éramos do Ferroviário, por influência de meu pai, então integramos a referida banda que fez muito sucesso na altura, tocando em festas e bailes. Nessa altura, como era óbvio, o nosso repertório era baseado em músicas brasileiras, particularmente o samba, de Martinho da Vila, músicas românticas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, o rock in roll de Elvis Presley e outras na altura em voga...

- Recebiam muitos convites para actuar?

- Sim, sobretudo em datas comemorativas. A nossa banda era muito requisitada, inclusive tocávamos em festas privadas, como baptizados, casamentos e outros convívios sociais. A nossa banda era formada por pessoas honestas que gostavam de tocar a música por gosto, e por amor á camisola...bons tempos aqueles! É verdade!

Primeiro Sucesso

- Qual foi o seu primeiro grande sucesso?

- Foi incontestavelmente a música “Bambaira”, que em nhungue signfica batata-doce. Foi entre 1977 e 1978 que criei este tema, nessa altura eu tocava na banda “Pedras Negras”. inspirei-me no quotidiano da vida rural da minha terra, que ao regressarem das suas machambas os camponeses levam à casa um alimento muito nutritivo, que é a batata-doce para a família. Devo dizer com toda a sinceridade que fiquei bastante surpreendido com o sucesso dela. Nunca pensei que esta música fosse agradar a toda a gente, desde crianças, jovens mulheres e velhos de toda a província de Tete. Esta música é um autentico hino, que se ouve até as zonas mais recônditas da província. Foi o êxito desta música que me inspirou a trabalhar com maior responsabilidade, primando sempre pela qualidade”.

- E o “Leka Culira” é também um outro seu cartão-de-visitas?...

- Sem dúvidas. O tema “Leka Culira”, que significa não chores em língua em nhungue é também uma música que me marcou bastante. È importante frisar que esta música é um hino que é entoado ao longo de todo o Vale do Zambeze e não só. Gravei “Leka Kulira” nos Estúdios da Rádio Moçambique em Maputo em 1998, sob captação do falecido teclista Fernando Azevedo.

- E qual é o lugar que ocupa “Mai Wangu”?

- “Mai Wangu”, (minha mãe) é também outro tema privilegiado no meio de todo o meu repertorio. Gravei esta música em 1983 também na Rádio Moçambique em Maputo. Gostaria de recordar que esta música foi gravada num momento particularmente importante da minha vida: eu estava a cumprir o Serviço Militar Obrigatório no quartel de Boane, arranjei um tempo e fui registar. Tenho a satisfação de recordar que parte desta música teve o acompanhamento do grande músico Alexandre Langa, já falecido.

Segredos de Chandu

- Qual foi o segredo para estes sucessos?

- No caso de “mai Wangu”, é uma dedicatória a minha mãe, uma espécie de a todas as mães do mundo. Todos temos ou tivemos uma mãe. É por esse facto inegavel que todos se identificam e se reveem na música. As restantes, abordam também questões sociais das nossas comunidades. Desculpa a minha falta de modéstia, mas devo também dizer que qualquer sucesso é recompensa de muita dedicação ao trabalho desde a criação até a finalização.

- Falemos do disco que o trouxe a Maputo. Qual é o título e o que é ele?

- “Zicomo Kwambire”, numa tradução livre do xinyanja para o português quer dizer agradecimento. É uma língua falada a Norte de Tete e isso significa “muito obrigado”.

- E qual é a ideia por detrás deste disco?

- É de agradecer a todos os meus fãs, particularmente os tetenses, que ao longo destes anos tem suportado a minha carreira.

- Que conteúdos insere a obra?

- O álbum possui dez faixas, cantados em português e xinhungue. Alguns temas são inéditos e outros foram recriadas, caso de “Mai Wangu”. Regra geral abordam a vida rural, a alegria e as mágoas do povo de Tete e não só.

- Quem produziu seu álbum?

- Eu próprio produzo e componho os meus trabalhos.

- Daqui há quanto tempo estará no mercado?

-Dentro de sensivelmente um mês, segundo informações da minha editora.

Tete e a música

- Como vai Tete em termos musicais?

- Primeiro dizer que em Tete não há uma única casa que comercializa instrumentos musicais. Segundo, não temos estúdios de gravação e muito menos uma Casa de Cultura. Como vê, é muito difícil haver desenvolvimento da música em Tete. Para se gravar é preciso deslocar a Beira ou Maputo, e isso custa dinheiro. Com tudo isto, não custa compreender que há muitas dificuldades para os músicos de Tete evoluírem. Há muitos músicos bons, sim senhor, mas que não têm espaço para mostrarem o seu trabalho.

- E as empresas tetenses não apoiam?

- O empresariado nacional não está preocupado com a cultura. Não apoia. Olha, eu por exemplo, para vir a Maputo, foi graças a boa vontade de um cidadão estrangeiro de nome João de Sousa, desculpa, não estou a fazer publicidade, que patrocinou a viagem e estadia. Fiquei hospedado em casa deste senhor de nacionalidade sul-africana. Veja que eu sou um músico com referência em Tete, sou um dos mais solicitados para actuar mas não consigo apoios para a editar um CD. O que será daqueles jovens talentos, ainda desconhecidos e sem nome na praça? Talvez tivesse ficado muito bom se o apoio que recebi tivesse vindo de uma empresa nacional... mas como não apareceu, eu aproveito a ocasião para agradecer este senhor João de Sousa que, mesmo sendo estrangeiro, abriu-se para imortalizar a minha obra.

- Qual foi o espectáculo memorável que o terá marcado particularmente?

- Foi há cerca de três anos na cidade de Chimoio, num festival Internacional entre Moçambique e Zimbabwe. Fiquei surpreendido pela positiva, quando ao subir ao palco, constatei que quase todas as minhas músicas eram cantadas pelos músicos zimbaweanos participantes ao evento

- Como define a sua música?

- Não só a minha, mas a música para mim é... mas o que é mesmo a música pá? Sabe, você me fez uma pergunta dificil...( risos). Mas... prontos, a música para mim é vida é tudo.

- Nunca sentiu a necessidade de actuar noutras províncias?

- Bem gostaria, mas faltam empressários da área de produtores sérios de espectáculos que promovem intercâmbio entre artistas nas províncias.

- como artista é alguém que tenta valorizar a arte das suas origens. E como indivíduo, como é que se define?

- Sou um tipo simples, humilde e... por vezes um pouco nervoso, quando os promotores de espectaculos não honram com o “cachet”. Mas dou-me com qualquer pessoa desde que haja respeito.

Relação fãs e obra

- Que “feed back” tem dos fãs sobre a sua obra?

- É bom. Tenhos muitos fãs que ao ver-me cantam minhas músicas, outros cedem-me lugar para para me sentar no “chapa”. Os cobradores muitas vezes não me cobram...(risos)

- Que tipo de música ouve?

- Gosto de ouvir um reggae suave ou ainda gospel, mas tem que ser nos domingos ou em dias calmos.

- Sempre viveu da música?

- É dificil viver da música em Moçambique. Temho outras profissões embora não esteja a exerce-las.

- A velha guarda está a desaparecer, pelo menos essa é a opinião corrente. Partilha deste sentimento?

- Sim, infelizmente. E parece que ninguém está preocupado em preservar o património que eles nos deixam. Acho que o Ministério da Educação e Cultura devia encarregar-se de catalogar o legado dos músicos da velha guarda já que a associação (dos músicos) não funciona como devia.

- Há casos concretos em Tete?

- Claro. Por exemplo, o Lázaro Vinho, um músico significativo de Tete, teve uma morte triste. Morreu de qualquer maneira. Não teve qualquer tipo de assistência quando ainda se encontrava doente. A mesma desgraça caiu sobre o artista Carlos Canimbera, que sempre alegrou os palcos de Tete e não só. Morreu assim de qualquer maneira. Hoje ninguém sabe o que será feito das suas músicas.

- Há muitas histórias sobre os crocodilos de Tete, que nos chegam muitas vezes pela rádio. É verdade por exemplo que os crocodilos do Zambeze chegam a roubar rádios?

- Vocês podem não acreditar mas essas são histórias verídicas. Embora hoje tenham reduzido os casos, porque foi autorizada uma empresa para abater os crocodilos. As crónicas de Arrune Vali, na altura no emissor provincial da RM em Tete sobre essa matéria, são reais...

RM promove nossa música

- A propósito de rádios, acha que a RM e outras tocam suficientemente a nossa música?

- Apenas a RM divulga a música moçambicana.

- Considera-se um homem apaixonado, pela sua terra, pela vida?

- Sim, muito. Só espero que a minha esposa, não leia esta passagem...

- Como artista, acha que o Ministério da Educação e Cultura faz pelas artes no país?

- Não gostaria de falar muito sobre esse ministério. Mas se funciona ou não esse esforço não se vê. Eu pelo menos não vejo.

- E a Associação dos Músicos Moçambicanos, faz algo?

- Idem. Em Tete, por exemplo, não existe delegação provincial da Associação dos Músicos. Não vejo nem oiço algo sobre esta colectividade. Desculpa, com muito respeito que tenho a pessoa de Hortêncio Langa, que aliás é meu amigo, não vejo nada que seja realização da Associação dos Músicos, que é dirigida por ele há tantos anos.

- A Associação prepara-se para uma assembleia geral, que poderá culminar com a nomeação de um novo secretário-geral. Que perfil deverá ter o futuro homem forte dos músicos?

- Primeiro, ele deve ser um músico experiente, quer dizer deve ter passado por etapas e saber tocar pelo menos um instrumento musical. Deve ainda conhecer as dificulidade dos artistas, sobretudo da velha guarda. E por fim, dizer que não deve ser um individuo egoísta. Tem que ter capacidade para compreender e saber actuar com base no seu mandato para o bem dos músicos.

- Virando de página, acha que as campanhas sobre o combate à Sida no país surtem efeito, pelo menos no seu ponto de origem?

- Nem todas. Algumas servem-se apenas para fins lucrativos em nome dos doentes de Sida. Isso é um facto inequívoco.

- Todos nós temos um sonho, qual é o seu?

- O meu sonho é de cantar um dia fora de Moçambique. Nunca cantei fora. Quero levar a música de Tete para o mundo. Como vou trabalhar com uma nova editora, a Vidisco, que tem apostado em colocar o seu catálogo fora das nossas fronteiras, então vejo nisso uma oportunidade para eu poder um dia cantar em palcos como os do Brasil, Portugal, Cabo Verde, Angola, África do Sul ou qualquer outro canto.

- Que apelo deixa para os jovens talentos?

- Que apostem naquilo que é nosso. Valorizar as coisas da nossa terra. Tocar os nossos ritmos, até porque é isso que os outros querm ouvir de nós. Temos que aproveitar as condições da qualidade da tecnologia de hoje.


Albino Moises


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